(Livro) Diários de Um Robô Assassino 2 – Condição Artificial

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24 de fevereiro de 2026. No último dia 24/02/2026 eu terminei Condição Artificial, segundo volume de Diários de um Robô Assassino, da Martha Wells. Eu literalmente acabei de concluir o ...

  • Roteiro
    2.5
  • Personagens
    2.0
  • Desenrolar da história
    1.5

24 de fevereiro de 2026.

No último dia 24/02/2026 eu terminei Condição Artificial, segundo volume de Diários de um Robô Assassino, da Martha Wells.

Eu literalmente acabei de concluir o livro e precisei pegá-lo novamente na mão para lembrar o título exato. Isso já é um sinal. Não sei ainda se é um sinal contra o livro ou contra mim.

Primeiro, tem uma coisa que me incomoda e que eu preciso dizer: não é exatamente um romance. É um conto porcamente inflado. E vendido a preço de livro. Duzentas páginas estreitas, letra grande, espaçamento duplo, frases curtas. A leitura voa rápido, mas não sei se isso é uma vantagem. Eu terminei sem sentir que de fato estava lendo um livro ou um resumo

A premissa geral continua interessante. A humanidade já ocupa a galáxia, exploramos planetas, investigamos estruturas alienígenas, estações, corporações privadas, contratos, seguros, exploração científica com cláusula de responsabilidade. Se você vai para um lugar potencialmente hostil, você contrata uma unidade de segurança. E essas unidades não são apenas robôs. São híbridos orgânico-mecânicos, construídos para obedecer e proteger.

O protagonista hackeia o próprio módulo de controle. Torna-se, em termos técnicos, uma entidade livre. Um segurança que remove o cadeado interno. Isso é uma ideia excelente. Excelente mesmo. Filosoficamente fértil. Um ser criado para obedecer que decide não obedecer.

Mas o que ele faz com essa liberdade? Assiste séries. Sim, séries.

A decisão de colocar a narrativa dentro da mente de um robô é excelente. Talvez seja a melhor coisa da série. Mas isso exigiria entender outras coisas. O que é consciência artificial nesse universo? Como ela surge? Por que surge? Por que esse robô, especificamente, desenvolve interesse por entretenimento humano?

A justificativa apresentada é simples: ele hackeou o módulo de controle, aceite isso, e ele usa o tempo livre para assistir séries que ele baixa sabe lá de onde. E essas séries são fictícias dentro do universo da obra. Uma delas sobre uma equipe que viaja pelo espaço. Outra sobre uma nave inteligente. Sendo honesto, as séries que ele assiste parecem mais interessantes do que o fato de ele assisti-las.

Isso me foi um ponto de frustração. Parece que ele assistir séries funciona tão somente como traço de personalidade para se encaixar no potencial público da obra. “Todo mundo hoje consome streaming, então meu personagem também vai consumir.” Só que quando você está lidando com uma entidade híbrida construída para matar, você tem a oportunidade de fazer perguntas maiores.

No primeiro volume, uma equipe científica contrata a unidade. Há um incidente, mas a explicação é extremamente rasa. Só que eles descobriram algo que não deveriam ter descoberto, algo como “foram a uma área proibida”. Isso gera conflito com a corporação. Há sabotagem, risco, mortes potenciais. O robô protege os humanos enquanto esconde que hackeou o módulo controlador. No final, ele sobrevive. E é comprado pela própria equipe, que lhe concede uma liberdade informal. Da região do espaço onde eles vieram, robôs podem viver como seres independentes.

E então ele vai embora. Foge sem olhar pra trás. Resolve fingir que é um humano e viver assim.

Ele não se torna líder de revolução. Não vira manifesto ambulante contra corporações. Não entra numa jornada épica. Ele simplesmente decide se afastar. Vaguear pelo universo. E isso é estranhamente interessante. Ou poderia ter sido. Ele acredita que é o responsável por um massacre no passado, e resolve investigar por conta própria, a partir de flashes que vê de vez em quando. Como ele é parcialmente orgânico, a memória dele nunca pode ser apagada integralmente, existindo o risco de algo ficar “armazenado” no cérebro orgânico dele.

Mas ele é um robô. A memória foi apagada. Ele não lembra de tudo. De quase nada, para ser exato. Fim. Mas ele resolve procurar mesmo assim.

Andando de porto espacial em porto espacial, ele termina pegando carona em uma nave ligada a uma universidade que possui uma inteligência artificial absurdamente superior. Aparentemente ela foi criada para analisar dados de pesquisas espaciais, mas a verdadeira natureza dela é meio nebulosa de propósito. No final das contas, Martha Wells não se dá ao trabalho de desenvolver quase nada que ela cria. Dito isso, para todos os efeitos práticos, a nave funciona como um Deus Ex Machina, já que muitos dos problemas que o nosso personagem encontra são resolvidos com a ajuda da nave:

  • Precisa mudar um pouco sua constituição para que o jeito de andar pareça mais com um humano? Não tem problema, a nave tem um central médica capaz de fazer isso!
  • Não sabe para onde ir para encontrar seu passado? Não tem problema, a nave tem todas as informações da humanidade e consegue fazer uma pesquisa em segundos que indica onde ele tem que ir agora.
  • Tem dificuldades para entrar em uma área? Não tem problema, a nave encontra um emprego (!) para o robô-assassino, de forma que ele chegue ao seu destino.

Você entendeu.

Já que acabei de falar da questão do emprego, nesse segundo livro ele e envolve com um grupo de pesquisadores que foram enganados por uma pessoa (como? quem era? o que os pesquisadores faziam? perguntas basicamente sem resposta) e querem contratar alguém para ajudá-los a pegar um conjunto de dados de volta. Que dados eram esses? Dados de pesquisa. Claramente um elemento de roteiro que está lá só para justificar a existência do livro.

Ao se oferecer para o trabalho, o robô assume o nome “Eden”. Não é um detalhe trivial. Nomear-se é um ato simbólico de nascimento. Só que a narrativa não parece interessada em explorar esse simbolismo com profundidade.

Existe, porém, algo que funciona muito bem: a amizade com a nave. Ou, no caso, a inteligência artificial que controla a nave espacial. Uma entidade gigantesca, processador colossal, consciência distribuída. A relação entre os dois é talvez o aspecto mais interessante de tudo. Dois seres artificiais tentando calibrar proximidade. Um deles cético, retraído, desconfiado. O outro curioso, comunicativo, quase sociável.

O problema é que todo o restante me parece irregular. Não é ruim. Não é ofensivo. Mas é irregular. Falta uma certa constância. Falta aquela sensação de que o autor sabe exatamente para onde quer levar a tensão central. Ou onde ela quer levar o texto. Ou para que aquele texto é importante. Será que é uma história que vale a pena ser contada?

E as questões apresentadas. Por que ele assiste séries? Ele assiste para aprender sobre humanos? Para simular emoções? Para testar narrativas? Para preencher silêncio existencial?

Eu chutaria que é para o último caso, ou seja: “preencher tempo livre”. O problema é que não dá para saber, já que nada disso é explorado com a profundidade que poderia. E eu sei que estou sendo repetitivo reclamando disso, mas é assim que eu me sinto o tempo todo.

Mas vamos lá, vou ser menos crítico e mais conectado com a proposta da obra: é um livro leve. Deliberadamente leve. Ela não quer ser um epopeia filosófica. No máximo, ser o diário de alguém que não quer ser herói. Um anti-herói que prefere isolamento à grandeza.

Mas eu não consigo deixar de sentir que o material tinha potencial para mais. Dava para ser melhor que isso. Dava para explicar mais e explorar mais do mundo sem necessariamente se tornar maçante. O primeiro livro poderia ter o dobro do tamanho que teve. O segundo poderia ter sido um epílogo do primeiro.

O curioso é que a série fez enorme sucesso, ganhou prêmios, uma adaptação televisiva. Existe algo ali que toca as pessoas. Se fosse chutar alguma coisa, acho que é o desconforto social do protagonista. Ele não gosta de interações. Fica irritado com emoções humanas. Protege as pessoas mesmo reclamando delas. Existe um humor seco constante. Um cansaço social crônico.

Isso dialoga com uma geração inteira que vive saturada de interação por causa das redes sociais, mas para mim ficou uma sensação de superficialidade. É aquela situação do “vivo cansado”, sendo que o “cansaço” se resume a “não quero me envolver com outros humanos, quero ficar no meu canto”.

A ideia central continua boa. Um ser criado para obedecer que descobre autonomia e, ao invés de conquistar o cosmos, escolhe assistir ficção. Existe uma pergunta interessante escondida aí: quando você retira a coerção, o que sobra da identidade?

No caso dele, sobra consumo cultural e fuga da realidade. Parece que a liberdade é tratada como ausência de obrigação, mas não como construção de propósito.

Para o meu eu do futuro, fica registrado: hoje, você terminou esse segundo livro com uma sensação ambígua. Não desprezo. Não entusiasmo. Um meio termo desconfortável. Um misto de “perda de tempo” com “ainda bem que li mais um livro esse ano”.

Talvez você releia daqui a vinte anos e ache brilhante.
Talvez ache raso demais.
Talvez descubra que o problema nunca foi o robô.

Talvez o problema seja sempre a expectativa.

Por enquanto, fica assim:
Uma boa ideia.
Uma execução irregular.
Uma amizade entre duas inteligências artificiais que quase salva tudo.
E uma sensação de que havia um universo maior esperando para ser explorado, mas que ficou orbitando ao redor da própria leveza.