(Filme) Spaceballs

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Acabei de terminar de assistir Spaceballs – filme este que, no Brasil, ganhou o extremamente exótico nome de SOS Tem um Maluco no Espaço. Sempre fico intrigado com essas traduções que rolavam nos anos 80 e 90, quando as regras para essas coisas eram bem mais leves.

O filme é uma paródia descarada dos épicos espaciais dos anos 70 e 80, principalmente Star Wars, Star Trek, Alien e por aí vai. Mas o foco maior é, sem dúvida, em Star Wars. E o filme não faz isso com a menor sutileza. Ele faz com um megafone, uma buzina de palhaço e um sabre de luz de borracha.

Na última tomada do filme, entramos em uma cantina espacial (onde a Millenium Falcon aparece, por sinal), que parece ter sido transportada da galáxia muito distante para um boteco interestelar. Lá temos uma releitura da cena do nascimento do xenomorfo no primeiro Alien, saindo do peito de um sujeito, quase piscando para a câmera enquanto faz isso. É homenagem? É deboche? Acho que são os dois, de mãos dadas.

Resumo do Roteiro

O roteiro básico do filme é o seguinte: a princesa Vespa, do planeta Druidia, está se casando com o príncipe Calmium (no original, ele se chama Valium, que é um ansiolítico e sedativo, por isso o príncipe vive com sono), mas não o ama. Por isso ela resolve fugir no dia do casamento. Até aí tudo bem.

O problema é que o líder do planeta Spaceball (Espaçobobo, em português), o Presidente Skroob (interpretado pelo quase centenário Mel Brooks – Skroob é Brooks ao contrário) resolve sequestrar a princesa para exigir o oxigênio de Druidia, já que por algum motivo a atmosfera de Spaceball está desaparecendo. O motivo disso ocorrer nunca é explorado, e honestamente a premissa é tão ridícula que ela já não faz sentido mesmo.

Esse plano infalível será executado pelo Capitão Sandurz e por Lorde Elmo (Darth Helmet), que é uma versão tragicômica do Darth Vader que perdeu o controle da própria autoestima. O capacete é grande demais. A postura é ameaçadora demais. A competência é de menos.

Para resgatar a princesa entra em cena Lone Starr e seu fiel escudeiro Barf (um híbrido meio humano meio cachorro), praticamente um reflexo torto de Han Solo e Chewbacca. Eles tem uma dívida com uma entidade que é simplesmente uma pizza gigante, paródia direta de Jabba the Hutt (Pizza the Hutt, por sinal), e pretendem usar o dinheiro da promessa do resgate para quitar essa dívida.

Ao conseguirem salvar a princesa das garras dos Spaceballs, Lone Starr, Barf, Vespa e a paródia esquisita do C3PO que acompanha Vespa vão parar em um planeta arenoso gigante (Tatooine?), enquanto os vilões a procuram freneticamente. Nessa hora surge uma das minhas cenas favoritas de todos os filmes de comédia que já assisti: os vilões, perdidos na busca pela princesa, resolvem assistir ao próprio filme para descobrir onde ela está. Eles literalmente pegam uma fita VHS de Spaceballs e avançam até o ponto da história em que encontram a princesa.

É metalinguagem pura. É quase uma aula prática de quebra da quarta parede. É o roteiro rindo do próprio roteiro. E, convenhamos, é genial.

Nesse planeta Lone Starr encontra uma paródia esquisita do Yoda (Yogurte) que o ensina os poderes da “Salsicha”. E fala sobre todo o merchandising do filme. Essa é uma clara paródia ao fato de que Star Wars passou a colocar seu nome em basicamente tudo que pudesse fazê-lo. Dizem que Spaceballs não teve nenhum merchandising porquê George Lucas teria cedido várias tecnologias usadas em Star Wars para fazer a paródia, com a condição de que o filme não tivesse produtos licenciados. Se é verdade eu não sei, mas fica o registro.

Um ponto fenomenal da dublagem é que o Yoda genérico é dublado pelo finado Orlando Drummond, e quando ele fala “salsicha” ele usa a mesma entonação do Scooby Doo.

Mas isso não é importante. O importante é que clímax do filme, o herói Lone Starr e o vilão Lorde Elmo duelam com sabres de luz que parecem muito com salsichas. Sim. E é exatamente como parece. E exatamente por isso funciona.

A árvore genealógica que se dobra sobre si mesma

Algumas piadas ficam ecoando na cabeça como aquele barulho de VHS rebobinando sozinho. E uma delas é a frase absurda de Dark Helmet dizendo que é o “Father’s brother’s nephew’s cousin’s former roommate” de Lone Starr. Na primeira vez ouvi isso, ignorei o absurdo, mas depois resolvi voltar atrás para pesquisar sobre.

Vamos desmontar:

  • Father’s brother = tio

  • Father’s brother’s nephew = primo

  • Father’s brother’s nephew’s cousin = …

E aqui está o truque.

O primo do meu primo pode muito bem ser eu mesmo.

Se o “father’s brother” é o tio, o “nephew” dele pode ser o próprio Lone Starr. E o “cousin” desse sobrinho pode fechar o círculo e retornar ao próprio Lone Starr. Ou seja: Dark Helmet pode ter basicamente dito que é o ex-colega de quarto do próprio Lone Starr.

Isso é genial por dois motivos:

  1. Parece uma frase longa e complexa. E é. Só que não significa nada.

  2. No fundo, pode significar algo extremamente simples.

E é uma bela paródia da obsessão de Star Wars com linhagens e revelações familiares dramáticas. Aqui, em vez de “I am your father”, temos um parentesco que dá voltas até virar basicamente nada. E aí entra o detalhe que eu não tinha considerado antes.

Se Dark Helmet foi realmente colega de quarto de Lone Starr, isso sugere que ele o conhece intimamente; ele sabe como ele vive; ele sabe como ele ronca e; talvez ele saiba como ele deixa toalhas molhadas jogadas. Talvez o ódio não venha do destino cósmico, mas da convivência universitária. Talvez o verdadeiro conflito galáctico tenha começado porque Lone Starr não lavava a própria louça. Isso transforma a rivalidade em algo quase mesquinho, quase banal, e por isso mesmo mais engraçado.

Independentemente de a frase significar que ele foi colega de quarto de Lone Starr ou do primo dele, existe um ponto sutil: Dark Helmet conhece a família de Lone Starr. Ele sabe quem é quem. Isso adiciona uma camada curiosa à narrativa. No filme inteiro, Lone Starr está tentando descobrir sua própria origem. Ele é um “príncipe perdido”, uma incógnita ambulante. E o vilão talvez já saiba mais do que ele.

Isso é uma inversão divertida da estrutura clássica de The Empire Strikes Back, onde a revelação de parentesco é um momento dramático monumental. Aqui, é uma frase jogada no meio de um acesso de fúria infantil. Isso é quase sofisticado na sua própria vulgaridade.

Lone Starr derrota Lorde Elmo (em uma cena onde eles acidentalmente atingem uma pessoa da equipe de filmagem) e inicia o protocolo de autodestruição da nave, que já estava sugando todo o ar de Druidia, fugindo em seguida para devolver a princesa para seu pai. Lone Starr e a princesa Vespa evidentemente se apaixonam, mas não podem fazer nada em relação a isso por serem de mundos diferentes. Ou de condições sociais diferentes, na verdade.

O medalhão régio que resolve tudo

Mas isso se resolve facilmente quando Lone Starr recebe uma mensagem telepática de Yogurte falando que o medalhão que convenientemente Lone Starr usa ao redor do pescoço e que foi deixado junto dele quando o jovem fora abandonado ainda bebê em um mosteiro prova que ele é um príncipe. A revelação de que Lone Starr é príncipe simplesmente porque tem um medalhão é quase uma gargalhada dirigida à tradição de linhagens épicas de Star Wars. Não há investigação histórica. Não há testemunhas antigas. Não há arquivos imperiais. Não tem nada. Se eu tivesse usado isso na CIL para comprovar minha ancestralidade sefardita eu teria sido negado facilmente. Lone Starr acredita que foi deixado em um mosteiro ainda bebê com esse medalhão, o item milagrosamente ainda está com ele até hoje, e é assim: tem um medalhão? Então é príncipe. Próximo assunto.

É uma solução narrativa tão descaradamente preguiçosa que vira genial. O filme não tenta justificar. Ele só aponta para o clichê e diz: “Olha como isso sempre foi conveniente”. O fato de que provavelmente a tal linhagem já estaria dissolvida no pó cósmico há séculos é irrelevante. Mas ninguém liga. O casamento precisa acontecer. A trama precisa fechar. O roteiro resolve com um pingente.

A cena do padre e o caos da comunicação

Essa é finíssima.

No casamento (pela segunda vez) da princesa Vespa com Calmium, Lone Starr e Barf invadem a cerimônia, ao que o padre, já puto da vida e doido para casar alguém, pergunta “Quem é você?”, e Barf responde todo orgulhoso, começando a explicar sua importância.

O padre corta:
“É você que vai se casar?”
“Não.”
“Então sai.”

É humor de timing puro.

Barf responde sem nem saber se a pergunta era para ele. É o reflexo humano mais banal: assumir protagonismo antes de confirmar o contexto. Isso tudo funciona porque desmonta a solenidade da cerimônia. Na maioria dos filmes, a cena final é rodeada de pompa. O casamento, que em narrativas clássicas é o ápice romântico, aqui vira quase um teatro escolar desorganizado.

O Planeta dos Macacos e o pessimismo elegante

Lorde Elmo, Presidente Skroob e o Coronel Sandurz, que ficaram dentro da nave dos espaçobobos enquanto ela era destruída, terminam caindo em um planeta distante. Por motivos que não valem a pena serem falados aqui, a nave agora tem uma cabeça igual à da estátua da liberdade. Logo, basicamente eles criam a cena final do filme o Planeta dos Macacos. E essa referência é maravilhosa.

Os macacos veem a nave em forma de Estátua da Liberdade e imediatamente concluem: “Pronto. Espaçobobos. Agora o planeta acabou.” É uma piada que carrega uma camada inesperada de cinismo. É uma constatação quase filosófica: Às vezes, bastam alguns idiotas determinados para comprometer um planeta inteiro. É o tipo de comentário que, por baixo da piada, carrega um microsegundo de reflexão amarga.

O que me chama atenção nisso tudo

O filme trabalha em três camadas:

  1. A piada óbvia.

  2. A referência pop.

  3. A autossabotagem do próprio clichê.

Ele ridiculariza:

  • Revelações dinásticas.

  • Cerimônias solenes.

  • Destinos cósmicos.

  • Alegorias grandiosas.

E faz isso com a confiança de quem sabe exatamente o que está desmontando.

Minha impressão consolidada

Se eu fosse técnico, frio, avaliando roteiro, fotografia, profundidade dramática:

? Nota 6.

Mas cinema também é experiência. É memória. É contexto histórico. É entender que esse filme nasceu num momento em que Mel Brooks resolveu brincar com o sagrado da cultura pop. E eu ri. Ri de verdade. Então, pela coragem, pelo absurdo assumido, pela consciência da própria tosquice:

⭐ Nota 9.

Eu gosto de filmes que não têm vergonha de serem bobos. Tem algo quase libertador nisso. Quanto mais eu revisito mentalmente essas cenas, mais percebo que o 9 que eu dei não foi por nostalgia. Foi pela inteligência escondida sob o absurdo. E talvez seja isso que eu mais goste no filme: a coragem de rir de si mesmo e a honestidade de admitir que, às vezes, a galáxia inteira pode ser arruinada por um punhado de Spaceballs.

Eu termino esse registro com a sensação de que o filme é um palhaço vestindo armadura. Parece desleixado, mas sabe exatamente onde pisar.