Tive a ideia do conto abaixo com base em um sonho que tive há uns dias.
A Piscina de Vinho
Naquela pousada à beira de lugar nenhum, ele não estava de férias.
Ele nunca estava.
Hospedara-se ali como quem ocupa um intervalo entre batalhas invisíveis. O prédio tinha azulejos antigos, corredores silenciosos e uma piscina que, um dia, fora azul.
Agora era brejo.
As crianças brincavam dentro de um pequeno barco, enquanto o pai empurrava da borda, evitando que os pés tocassem a água espessa. Todos pareciam aceitar aquilo como normal. Como se o verde viscoso fosse apenas o preço das coisas que envelhecem.
Mas ele não aceitava.
Sem que ninguém pedisse, começou a trabalhar.
Drenou a água turva.
Arrancou as raízes que se infiltravam nas bordas.
Modelou o fundo como quem redesenha o próprio relevo interno.
O barro sob seus pés era pesado, mas honesto. Era trabalho real. Era concreto. Ele gostava disso.
Quando terminou, a piscina estava vazia. Um vazio limpo.
E então veio a ideia.
Não a encheria com água comum. Água era trivial. Água era retorno ao estado anterior.
Ele a encheria com vinho.
Comprou garrafas suficientes para tingir o fundo de rubro profundo. Uma piscina inteira de celebração. De intensidade. De vida adulta.
Começou a despejar.
O líquido escorria como promessa.
Mas as garrafas, estranhamente, estavam quase vazias.
Uma.
Outra.
Outra.
Todas novas. Todas insuficientes.
O vinho mal cobria os próprios pés.
Foi quando ela apareceu.
A recepcionista, vestida como quem parte para algum lugar onde a noite é possível. Ela o observou por um momento, entre divertida e curiosa.
— Você não precisava fazer isso — disse.
Ele segurava uma garrafa seca na mão.
— Estava impraticável.
Ela se aproximou da borda.
— E agora?
Ele olhou para o fundo avermelhado, raso demais para nadar, profundo demais para ignorar.
— Agora falta vinho.
Ela sorriu, mas não com deboche. Era um sorriso que parecia saber de algo.
— Talvez não fosse para encher com vinho.
Silêncio.
Ao longe, as crianças riam. O barco ainda estava ali, apoiado na parede, esperando uma água que não vinha.
— Você vai continuar? — ela perguntou.
Ele hesitou.
Era isso que ele sempre fazia: continuar.
Mas ela estendeu a mão.
— Ou você pode vir conversar.
Ele olhou para a piscina inacabada.
Olhou para as garrafas vazias.
Olhou para ela.
E, pela primeira vez, considerou deixar algo incompleto.
